Magazine Luiza × AiQFome: como destrinchamos um deal que o mercado deu como "valor não revelado"

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erico

07/05/2026

Magazine Luiza × AiQFome: como destrinchamos um deal que o mercado deu como “valor não revelado”

O ponto de partida

Em 3 de setembro de 2020, o Magazine Luiza anunciou a aquisição da AiQFome. Na coletiva de imprensa, Roberto Bellissimo, CFO e diretor de Relações com Investidores do Magalu, foi direto: o valor “não é materialmente relevante.”

A imprensa cobriu o anúncio com as métricas que o Magalu quis divulgar, R$ 700 milhões de GMV anualizado, 2 milhões de usuários, 350 cidades, crescimento de 264% no ano. O valor da transação saiu de praticamente todos os artigos como “não revelado.”

Só que o Magalu é uma empresa pública. E empresas públicas são obrigadas a divulgar aquisições relevantes em seus documentos regulatórios.

A pergunta não era “será que o valor está em algum lugar?” A pergunta era onde.

Magazine Luiza × AiQFome: como destrinchamos um deal que o mercado deu como “valor não revelado”

 


 

Onde o número estava

Nas Notas Explicativas de Combinação de Negócios das Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP) consolidadas do Magazine Luiza, referentes ao exercício de 2020/2021, o valor aparece de forma clara.

A contraprestação total máxima foi de R$ 125 milhões, estruturada assim:

  • R$ 87,5 milhões pagos no fechamento, em caixa e/ou ações
  • Até R$ 37,5 milhões em earn-out — 5 parcelas anuais em ações MGLU3, condicionadas ao cumprimento de metas de performance e permanência dos fundadores por 5 anos

Isso coloca a AiQFome como a segunda maior aquisição do Magalu em 2020, atrás apenas da Hub Fintech (R$ 290M) e à frente de todas as outras aquisições “cirúrgicas” daquele ano.

Múltiplo implícito pelo GMV: ~0,18× o GMV anualizado de R$ 700M. O múltiplo de receita não é calculável porque a AiQFome nunca divulgou sua receita líquida e o take rate do negócio permanece desconhecido.

 

 


 

Quem era a AiQFome

Igor Remigio e Steph Gomides fundaram a AiQFome em 2007 em Maringá com R$ 600 de investimento inicial. Eles eram freelancers de web design que faziam cardápios para restaurantes locais. A ideia nasceu da frustração com o processo de pedidos por telefone.

O que diferencia esse case de 90% dos cases de startup brasileiros é o seguinte: eles nunca levantaram capital externo. Nenhuma rodada seed, nenhum anjo, nenhum fundo. Sete sócios, todos operadores.

A filosofia de Igor era explícita: “Queria um negócio que entrasse R$ 100, saísse R$ 80 e sobrasse R$ 20. Teria de fazer rodada A, B, C… até Z. Não era para mim.”

Essa escolha teve consequência direta no exit: sem preferência de liquidação de investidores, sem anti-diluição, sem participações acumuladas de fundos. O upside do exit ficou integralmente com os fundadores e sócios.

A estratégia de negócio era igualmente clara: ocupar o espaço que o iFood não se interessava, cidades do interior com 15 mil a 300 mil habitantes. Em 2020, 70% das cidades onde a AiQFome operava já tinham loja do Magazine Luiza, o que tornava a sobreposição de base quase perfeita.

 

 


 

Por que o Magalu comprou

A estratégia do Magalu em 2020 era transformar seu aplicativo num superapp, um único ambiente onde o usuário comprasse eletrodomésticos, pagasse contas, pedisse comida e contratasse serviços financeiros. Para isso, a empresa fez 21 aquisições entre 2020 e 2021.

A lógica da AiQFome se encaixava em três pilares:

Frequência de uso. Compra de varejo acontece algumas vezes por mês. Pedido de delivery acontece todo dia. Integrar o AiQFome ao superapp Magalu eleva o tempo de sessão e o número de touchpoints com o usuário de forma que nenhum eletrodoméstico consegue.

Logística reversa. A ideia declarada era usar os motoboys do AiQFome para entregar outros produtos do Magalu no interior, criando uma malha logística de last mile que o Magalu estava construindo por aquisição.

Magalu as a Service. Os 17 mil restaurantes parceiros da AiQFome entrariam automaticamente no ecossistema de serviços do Magalu, MagaluPay como solução de pagamento, MagaluEntregas, acesso ao marketplace. Era a tese de “seller” aplicada ao segmento de alimentação.

 

 


 

O que os dados não mostram

Há um risco que nenhum documento regulatório detalha adequadamente: o earn-out em ações de empresa pública é uma faca de dois gumes.

Os fundadores e sócios que permaneceram assinaram um contrato de 5 anos com metas atreladas a até R$ 37,5M em ações MGLU3. Na data da assinatura, setembro de 2020, as ações do Magalu estavam próximas de R$ 90. Nos anos seguintes, a trajetória foi outra: MGLU3 perdeu aproximadamente 70% do seu valor entre 2021 e 2024.

Isso significa que o earn-out, se e quando pago, valeu em termos reais uma fração do que parecia valer no contrato. Uma lição importante sobre a estrutura de pagamento em ações: o vendedor assume o risco da ação do comprador durante o período de earn-out.

Outro ponto que os documentos públicos não respondem: o take rate da AiQFome. Sem saber quanto da intermediação ficava com a plataforma, é impossível calcular o múltiplo de receita e avaliar se o preço pago foi caro ou barato. A empresa nunca divulgou esse número e não é obrigada a fazê-lo.

 

 


 

O que aconteceu depois

Em 2022, o Uber Eats anunciou a saída do Brasil. A AiQFome, que até então era a terceira maior plataforma de delivery do país, tornou-se a segunda com o iFood mantendo a liderança absoluta.

Em 2024, o GMV da AiQFome superou R$ 1 bilhão. O Magalu usou a empresa como veículo de aquisição ao comprar a Grand Chef, plataforma de delivery do Espírito Santo, primeiro passo concreto da expansão para cidades maiores.

Em 2025, Igor Remigio declarou publicamente a intenção de usar a marca e infraestrutura do Magalu para entrar nas capitais, onde a competição com o iFood é mais intensa.

Em termos de escala, a tese do Magalu funcionou. Em termos de retorno financeiro para os fundadores, o earn-out em MGLU3 é a variável que o mercado não consegue calcular com precisão.

 

 


 

O que esse deal ensina para founders pensando em exit

Três lições práticas que extraímos desse case para founders de tecnologia e serviços:

1. “Valor não revelado” quase sempre tem endereço. Se a compradora for pública — B3, NYSE, NASDAQ — o valor estará em algum documento regulatório. DFP, ITR, notas explicativas de combinação de negócios. É trabalho, não magia.

2. Bootstrapped tem vantagem estrutural no exit. Sem investidores com preferência de liquidação, os fundadores capturam o upside integral. O preço de não ter capital externo é crescer mais devagar; o benefício é que na venda, cada real do deal vai para quem construiu.

3. Earn-out em ações é parceria, não pagamento. Quando parte do deal é paga em papel do comprador, o vendedor vira sócio do risco futuro da compradora. Na data da assinatura, ninguém previu que MGLU3 perderia 70% em 4 anos. Founders que negociam earn-out devem entender o risco de concentração nessa posição.

 

 


 

Como fazemos essa análise na Outlier Partners

O que descrevemos aqui é a metodologia que aplicamos em todos os nossos mandatos de M&A sell-side: entender o mercado de compradores, os múltiplos reais praticados, e a estrutura financeira dos deals comparáveis não o que os releases dizem, mas o que os documentos regulatórios registram.

Quando um founder nos pergunta “quanto vale minha empresa?”, a resposta começa por casos como esse: o que o mercado efetivamente pagou, como estruturou, e o que aconteceu depois.

Se você está pensando em vender sua empresa ou levantar capital, faz sentido conversar.

 


 

 

Érico Freitas é sócio fundador da Outlier Partners, ecossistema de M&A especializado na jornada de empreendedores de tecnologia e serviços. Ajudamos a crescer com governança, atrair os investidores certos e vender no timing ideal.